Confesso que nutria um orgulho silencioso das minhas aventuras gastronômicas, descobrindo novos sanduíches nas esquinas mais inusitadas. Um dia agente paga por isso. Eu paguei internado uma semana com muita febre e aguentando aquele clima de hospital. O pior momento é a Emergência, ninguém te olha no olho, tudo parece que é um favor enorme que estão te fazendo. Espera-se horas por coisas simples como um travesseiro.
Eles até que tentam, mas sem muito compromisso. De uns tempos para cá começou a circular uma moça sorridente perguntando se falta alguma coisa, normalmente elas se apresentam como do setor de qualidade. A princípio é uma boa idéia, mas basta insistir por algo fora do padrão, como um cobertor em menos de uma hora que o sorriso no rosto ou a dona dele somem rapidinho.
Lembrei das discussões que costumo provocar sobre o papel da garantia de qualidade nos processos como o de gestão de projetos. Defende-se que esta atividade não é mera auditoria para checar se todos estão produzindo os documentos conforme estabelecido. O papel do consultor de qualidade seria aumentar a produtividade das equipes apontando o melhor uso do processo, alertar sobre as armadilhas, carregar lições aprendidas entre projetos diferentes. Perfeito, mas se não houver determinação em garantir este perfil de atuação, uma força da gravidade leva estes profissionais para o “cara-crachá”, e lá estamos nós apenas checando se o processo foi seguindo ou não.
Há alguns anos trabalhei por período como consultor de qualidade em projetos de software, o modelo adotado na área foi muito interessante. Os consultores de qualidade eram necessariamente líderes de projeto que acumulavam as duas responsabilidades. Assim, nos ciclos de qualidade quando você avaliava o projeto do colega trazia sua experiência para a mesa. Discussões muito ricas surgiam quando um líder, por exemplo, explicava porque ele ou a equipe não fez essa ou aquela atividade do processo, era porque ela realmente não se aplicava a realidade deles. Outras vezes você demonstrava, baseado na vivência do seu projeto, que os riscos de não fazer aquilo que ele achava desnecessário eram altos demais e comprometia o líder da necessidade daquele artefato.
É claro que pode-se obter resultados posisitivos com modelos diferentes, a mensagem que fica é da responsabilidade do patrocinador da garantia da qualiadade de não transformar esta atividade numa figura sem credibilidade, em que as pessoas vão associar a necessidade de fazer um documentos que eles consideram inútil apenas para não tomar nota baixa.

